PSIQUÊ: PÁGINAS PERDIDAS

terça-feira, 19 de abril de 2011

PÁGINAS PERDIDAS

O calendário na parede denuncia um tempo que não volta, reflete vida desperdiçada na imensidão de dias sem sal. E vejo cada folhinha arrancada como uma possibilidade perdida, como se fosse retirada uma parte de mim cada vez que preciso abandonar esses dias marcados.
Mesmo assim, permaneço estática; embora corra demais. Sinto-me cada vez mais arrastada para um abismo estridente. Meus passos não acompanham minhas vontades, meus pés não seguem meus sonhos. E sequer tenho forças pra mudar a direção.
Um instante e o mesmo instante já pertence ao passado. E eu implorando pro tempo se acalmar. Mas o relógio na estante parece não se importar. Ele teima em seguir sempre em frente, chegando até a caçoar de minhas angústias latentes.
Num ímpeto de desespero, decido então arrancar suas pilhas, como se isso bastasse. Não serve de nada. Afinal, o tempo não é movido a ponteiros, segue sempre no seu compasso particular.
Ultimamente, o tempo tem parecido andar a passos cada vez mais largos, mais distantes, mais vazios. E essa minha vontade de fugir, de sumir, anda a me sufocar incessantemente, como se assim bastasse para que tudo se normalizasse. Mas não devemos nos enganar, o tempo não segue regulamento algum.
Gostaria apenas que ele andasse um pouco mais devagar, que ele diminuísse esse passo tão largo. Tento dizê-lo que tenho as pernas curtas e não posso andar tão rápido, mas ele parece não me escutar. Procuro dissuadi-lo que com toda essa pressa, ele está me atrapalhando, fazendo com que deixe coisas inacabadas, pela metade ao longo do dia, porque logo escurece e tudo volta ao zero novamente. Digo ao tempo que ele é muito egoísta e não pensa nos outros, e também que ele precisa brincar de caramujo, ou de bicho preguiça.
Embora pareça que não o importuno com minhas reclamações, continuarei a gritar, a implorar ao tempo que ele precisa me deixar aproveitar essa jornada um pouco mais, porque assim tão rápido, eu não consigo admirar a paisagem.

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