PSIQUÊ: abril 2011

sábado, 30 de abril de 2011

NOITES NEBULOSAS


Venho buscando entender esses estranhos sentimentos há um longo tempo. Mas a verdade é não existem palavras nesse imenso vocabulário que possam explicar, mesmo que insuficientemente, o que sinto nessas tortuosas noites. 
É uma certeza triste, algo que me deixa ao mesmo tempo esperançosa e apreensiva. Não sei realmente como me tornar inteligível. Só sei que é uma sensação de angústia e alegria. Parece que alguém está a abrir inteiramente meu peito, ferozmente, e que apesar da inicial dor arrebatadora o que surge por detrás faz absolutamente tudo valer a pena. 
Algumas vezes sinto como se meu coração transbordasse, num ímpeto de ansiedade e desespero, me lembrando que tudo pode ser simplesmente uma fantasia irreal da minha mente sonhadora. 
Mas deixo-me levar pelas profundas certezas de uma noite, pois é muito mais belo e inspirador que ver tudo por linhas tristes e sem vida. Alegra-me saber que de alguma forma, embora não veja como, existe algo que vale absolutamente tudo, todo o tempo aparentemente perdido.
O fato de não ver claramente, de tudo ainda estar às vezes totalmente nebuloso não me incita a desistir, existe alguma certeza interna mais forte que tudo que me põe a caminhar, a correr, a jamais esmorecer.
E é por isso que apesar de parecer que seja ilusória essa minha intuição, a seguirei até o fim, não porque não me resta nenhuma outra saída, mas porque é a verdade que acredito. E isso faz qualquer esforço necessário ser ínfimo, só por existir essa vaga certeza de que em algum lugar, mesmo longínquo, estará a me esperar.   

domingo, 24 de abril de 2011

NOVO DIA


O sol sempre nasce novo a cada dia, trazendo com ele sempre um dia novo. Algo realmente maravilhoso! O único pesar é que isso não significa que os elementos do dia tenham de ser sempre novos, e geralmente não os são.
Deparamo-nos com a mesma velha rotina, o mesmo antigo marasmo de sempre. Descobrimos simplesmente que embora o dia tenha nascido novo, ainda permanecemos com os mesmos defeitos, as mesmas qualidades, os antigos medos, as mesmas velhas máscaras, tudo exatamente igual a todos os dias.
Mesmo o dia se apresentando brilhante, vivo, esperançoso, ainda estamos embriagados com os mesmos problemas tacanhos e mesquinhos de sempre, ainda atormentados pelas mesmas velhas preocupações de cada dia.
Um dia novo! Algo que deveria soar como libertação e coragem surge como uma velha caixa de som zunindo em nossos ouvidos ou como um enorme peso que carregamos sobre as costas. Não nos libertamos simplesmente porque tudo permanece igual, fazemos as mesmas velhas coisas de todo dia, temos os mesmos trabalhos, os mesmos desafios, até mesmo os nossos pensamentos são iguais. O nós de hoje continua sendo o nós de ontem, que é exatamente o mesmo que o da semana passada; tudo o que gostaríamos de evitar.
Mas o bom dessa história é que o sol sempre nasce novo a cada dia, trazendo com ele sempre um novo dia, nos proporcionando uma nova oportunidade de realmente viver um dia novo. E isso é algo que só cabe a nós decidir. Podemos fazer do nosso novo dia o dia velho de ontem ou dar a chance a nós mesmos de ser o dia mais magnífico de toda nossa existência.
Quando o sol raiar, só depende de nossa escolha ter um novo dia!

terça-feira, 19 de abril de 2011

PÁGINAS PERDIDAS

O calendário na parede denuncia um tempo que não volta, reflete vida desperdiçada na imensidão de dias sem sal. E vejo cada folhinha arrancada como uma possibilidade perdida, como se fosse retirada uma parte de mim cada vez que preciso abandonar esses dias marcados.
Mesmo assim, permaneço estática; embora corra demais. Sinto-me cada vez mais arrastada para um abismo estridente. Meus passos não acompanham minhas vontades, meus pés não seguem meus sonhos. E sequer tenho forças pra mudar a direção.
Um instante e o mesmo instante já pertence ao passado. E eu implorando pro tempo se acalmar. Mas o relógio na estante parece não se importar. Ele teima em seguir sempre em frente, chegando até a caçoar de minhas angústias latentes.
Num ímpeto de desespero, decido então arrancar suas pilhas, como se isso bastasse. Não serve de nada. Afinal, o tempo não é movido a ponteiros, segue sempre no seu compasso particular.
Ultimamente, o tempo tem parecido andar a passos cada vez mais largos, mais distantes, mais vazios. E essa minha vontade de fugir, de sumir, anda a me sufocar incessantemente, como se assim bastasse para que tudo se normalizasse. Mas não devemos nos enganar, o tempo não segue regulamento algum.
Gostaria apenas que ele andasse um pouco mais devagar, que ele diminuísse esse passo tão largo. Tento dizê-lo que tenho as pernas curtas e não posso andar tão rápido, mas ele parece não me escutar. Procuro dissuadi-lo que com toda essa pressa, ele está me atrapalhando, fazendo com que deixe coisas inacabadas, pela metade ao longo do dia, porque logo escurece e tudo volta ao zero novamente. Digo ao tempo que ele é muito egoísta e não pensa nos outros, e também que ele precisa brincar de caramujo, ou de bicho preguiça.
Embora pareça que não o importuno com minhas reclamações, continuarei a gritar, a implorar ao tempo que ele precisa me deixar aproveitar essa jornada um pouco mais, porque assim tão rápido, eu não consigo admirar a paisagem.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

FELICIDADE ETERNA

Todos nós buscamos a felicidade e desejamos possuí-la para sempre, como se assim nossa vida se tornasse perfeita. Mas o que nos esquecemos é que o ser humano não vive sem desafios, sonhos e problemas. Acredite! Não há vida sem tais elementos.
Estamos sempre reclamando de tudo, implicando que as coisas não dão certo pra gente, buscando incansavelmente por algo que não existe.
A verdade é que a felicidade não é a solução para nossos desencantos e nunca deve ser nossa busca primordial. Aliás, nem deve ser nosso objetivo nessa caminhada alcançar a felicidade, que é algo imensurável e imponderável do ponto de vista humano e que, mesmo se fosse possível, jamais nos completaria.
Afinal, assim como a história acaba quando se chega no “felizes para sempre”, a vida também terminaria se tudo fosse absolutamente perfeito e todos fossemos sempre felizes, pois não haveria história, não existiria vida. Uma vida inteira de felicidade! Jamais aguentaríamos tal realidade.
Mas, mesmo sabendo que a felicidade eterna não existe, inconscientemente a buscamos, porque sempre fomos levados a acreditar nela. Desde sempre somos enganados, sonhando com algo impossível, ansiando fervorosamente por algo totalmente irrealizável, quando o que deveríamos fazer é simplesmente aproveitar todos os momentos que nos são proporcionados, sejam eles bons ou ruins, sem expectativas, apenas nos deixando levar pelas inebriantes garras do destino.
E, se entregando nas mãos fugazes do dia-a-dia, certamente alcançaremos o que secretamente desejamos desde os tempos mais longínquos: a tão procurada e desejada felicidade. Não a eterna, mas a momentânea e passageira, que é a única possível e verdadeira.