PSIQUÊ: agosto 2011

terça-feira, 9 de agosto de 2011

DIAS CRONOMETRADOS


Eu não me sinto mais no tempo. Não vejo mais os dias. Não consigo exprimir minhas vontades nem ressaltar minhas verdades. Meus sentidos estão totalmente deturpados, destituídos de qualquer sensação exata. Deixo-me levar pelas profundezas das horas, meses e anos sem ter força alguma para lutar contra a enxurrada de compromissos que não queria assumir.
Mas ultimamente percebo que não temos muitas escolhas perante toda essa lastimável realidade. Estamos condenados a cumprir papéis e horários descabíveis que muitas vezes nem sequer lembramos quando foi que nos comprometemos.
E tudo continua sempre igual, dias repetidos, dias tumultuados, dias turbulentos, dias pacíficos, dias e dias sem fim, num ressonar interminável. Dias que são tudo, menos vividos. E é com um grande pesar que percebemos que nem os aproveitamos.
Não vemos o sol nascer, não reparamos no pôr-do-sol, mal nos damos conta das leves brisas de fim de tarde, perdemos o espetáculo das estrelas e da lua praticamente todas as noites, e tantas outras perdas que poderia citar, simplesmente porque estamos tão dominados pelas obrigações que as horas nos impõem.
Nossos sentidos estão cada vez mais precários, nossas vidas estão cada vez mais vazias, nossas horas contadas minuciosamente. Não temos mais nem espaço para respirar direito nesse mundo tão exigente.
Com todas essas entranhas, não é mesmo de se estranhar que as pessoas estejam como estão, todas perdidas, confusas, desumanas. Estamos sendo tratados como máquinas, sem direito a reparações nem descanso.
E vejo que toda essa nebulosidade está bem longe de ter final, somente vão se prolongando as reduções dos dias e aumentando as implicações das horas, enquanto estamos todos embriagados pelas circunstâncias.
Só desejo que uma luz pacificadora venha para nos libertar dessa angustiante trilha, moldando-nos um destino mais límpido e humano, trazendo de volta nosso antigo mundo, com dias mais longos ou obrigações menos esmagadoras.